Atualização da lista nacional de espécies ameaçadas recoloca mamífero aquático na categoria “Criticamente em Perigo”. Em Sergipe, peixe-boi Astro vive entre o Rio Vaza-Barris e Mangue Seco (BA)

A atualização da Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção recolocou o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) na categoria Criticamente em Perigo (CR), o mais alto grau de ameaça antes da extinção na natureza. A nova classificação foi oficializada por meio da Portaria nº 1.704/2026 do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Segundo a Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), a decisão tem impacto também para Sergipe, onde o peixe-boi Astro vive em liberdade na faixa costeira entre o Rio Vaza-Barris, em Sergipe, e Mangue Seco, na Bahia.
A fundação explica que a reclassificação não significa um agravamento recente da situação da espécie, mas um reconhecimento científico mais compatível com a realidade observada há anos. O peixe-boi-marinho figurava na categoria “Criticamente em Perigo” há cerca de 25 anos, mas, em 2014, passou para “Em Perigo” (EN), reduzindo o nível de urgência atribuído à espécie nas políticas públicas de conservação.
Após essa alteração, pesquisadores especializados publicaram o estudo Don’t let me down: West Indian manatee, Trichechus manatus, is still Critically Endangered in Brazil, liderado pela pesquisadora Ana Carolina Meirelles e com participação do coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, João Carlos Gomes Borges, além de outros especialistas.
Conforme a instituição, o trabalho utilizou a metodologia da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), referência mundial para avaliação do risco de extinção, e concluiu que o peixe-boi-marinho deveria permanecer classificado como “Criticamente em Perigo” no Brasil. A nova portaria, segundo a entidade, incorpora esse entendimento científico ao instrumento legal que orienta as políticas públicas de conservação.
Espécie desapareceu de trechos do litoral sergipano
A FMA informa que o peixe-boi-marinho já ocupou uma extensa faixa do litoral brasileiro, desde a região Norte até o Espírito Santo. A caça intensiva desde o período colonial e a degradação dos ambientes costeiros provocaram uma redução acentuada da população, levando ao desaparecimento da espécie em diversos trechos do país, incluindo áreas do Espírito Santo, Bahia e Sergipe.
Nesse contexto, o peixe-boi Astro tornou-se um marco para a conservação da espécie. Monitorado pelo Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, ele foi reintroduzido na natureza em 1998 e passou a viver entre Sergipe e Bahia, tornando-se um dos primeiros casos de reintrodução bem-sucedida do mamífero no país e contribuindo para a retomada da espécie em uma região onde era considerada extinta.
População reduzida
A entidade estima que existam cerca de 1.100 peixes-bois-marinhos no litoral nordestino. O número, entretanto, considera apenas áreas onde foram realizados censos aéreos, abrangendo o trecho entre Alagoas e Piauí, em razão das limitações metodológicas para esse tipo de levantamento. Entre as principais ameaças à espécie estão a perda dos habitats costeiros, especialmente dos estuários, a captura acidental em redes de pesca, a poluição e as colisões com embarcações, fatores que mantêm a população sob pressão constante.
Projeto atua na conservação desde 2013
O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho é desenvolvido pela Fundação Mamíferos Aquáticos desde 2013, com patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. A iniciativa realiza ações de pesquisa, monitoramento e conservação da espécie no Nordeste e no Amapá.
A fundação ressalta ainda que desenvolve atividades voltadas à conservação dos peixes-bois-marinhos desde 1989, antes mesmo da criação do projeto, considerado atualmente uma das principais iniciativas estruturadas para evitar a extinção da espécie no Brasil.
Com informações da Ascom/FMA
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